100 anos da Guerra Cristera: Padres caçados como animais! Sangue que alimentou a fé no México

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Sob o céu azul da cidade de Cancún, no México, um evento de profunda transcendência histórica e espiritual marcou o início de um ano de memórias dolorosas e gloriosas.

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No dia 7 de fevereiro, o mundo católico voltou os seus olhos para o passado, ao completar-se exatamente cem anos do prelúdio de um dos episódios mais dramáticos e heroicos da história religiosa do século XX: a Cristiada. Longe de ser apenas um destino turístico paradisíaco, Cancún transformou-se no epicentro da memória cristã ao acolher um congresso solene na igreja dedicada a San José Luis Sánchez del Río, o jovem mártir que, com apenas 14 anos, entregou a sua vida por não renegar a Cristo. Este encontro, realizado com o apoio explícito da administração apostólica local, não foi apenas uma reunião acadêmica, mas um ato de reivindicação de uma identidade forjada no fogo da perseguição. Sacerdotes, historiadores renomados e fiéis leigos reuniram-se para honrar o centenário do início da Guerra Cristera, um conflito que opôs a força bruta de um Estado ateu à resistência inquebrável de um povo que se recusou a ver os seus altares profanados e a sua fé criminalizada.

Para compreendermos a magnitude deste congresso e a importância do centenário, é imperativo mergulhar nas sombras de 1926, quando o México se viu mergulhado em uma escuridão institucionalizada. A origem deste conflito sangrento repousa em um processo prolongado e sistemático de hostilidade governamental contra a Igreja Católica, que atingiu o seu paroxismo sob a presidência de Plutarco Elías Calles. Armado com a Constituição de 1917 e, mais especificamente, com a draconiana legislação que levou o seu nome — a infame “Lei Calles” —, o governo mexicano decidiu sufocar a vida espiritual da nação. Esta lei não buscava apenas a separação entre Igreja e Estado, mas a erradicação da influência católica na sociedade: proibiu-se o culto público, fecharam-se templos veneráveis, expulsaram-se sacerdotes estrangeiros e criminalizou-se a administração dos sacramentos. Foi um momento em que a liberdade de consciência foi sequestrada pelo poder estatal, obrigando milhões de mexicanos a escolher entre a submissão a uma lei injusta ou a clandestinidade perigosa para manter viva a chama da sua religião ancestral.

Diante deste cenário de asfixia espiritual e tirania política, aconteceu o impensável: o povo simples levantou-se. O que a história conhece como “A Cristiada” não foi uma revolta planejada por generais ou orquestrada pela hierarquia eclesiástica em gabinetes fechados; foi um levante espontâneo, orgânico e desesperado de camponeses, rancheiros, mães de família e jovens estudantes. Estes fiéis, a grande maioria de origem humilde e desprovidos de treinamento militar formal, decidiram que a sua fé valia mais do que a sua própria segurança física. Inicialmente buscando a resistência pacífica através de boicotes econômicos e desobediência civil, a brutalidade da repressão governamental empurrou-os para a defesa armada. De 1926 a 1929, o México testemunhou o nascimento de um exército improvável, movido não por ambições territoriais ou poder político, mas pelo direito sagrado de assistir à Missa, batizar os seus filhos e morrer com os últimos sacramentos. Eles eram os Cristeros, e sua coragem desafiou um dos exércitos mais poderosos da América Latina na época.

O coração pulsante deste movimento e um dos temas centrais debatidos no congresso em Cancún foi o lema que se tornou a identidade sonora da resistência: “¡Viva Cristo Rey!”. Este grito, muito mais do que um slogan de guerra, era uma profunda confissão teológica e pública de fé. Diante dos pelotões de fuzilamento, nas emboscadas nas serras ou nos últimos suspiros nos calabouços, homens e mulheres proclamavam a realeza de Jesus Cristo sobre as leis injustas dos homens. Unido inseparavelmente à devoção à Virgem de Guadalupe — a Imperatriz da América e bandeira perpétua dos insurgentes —, este clamor representava a afirmação suprema de que a soberania divina está acima de qualquer poder temporal que pretenda relegar Deus ao esquecimento ou à esfera estritamente privada. No congresso, recordou-se como essa frase irritava os perseguidores, pois cada vez que era gritada, destruía a narrativa de que a Igreja estava morta; ao contrário, provava que ela estava mais viva e vibrante do que nunca no coração do povo.

A escolha da igreja de San José Luis Sánchez del Río para sediar este evento histórico não foi coincidência, mas uma mensagem poderosa sobre o custo do discipulado. A Cristiada é, essencialmente, uma história de martírio. Durante as palestras e reflexões, a figura deste jovem santo — torturado e morto por se recusar a apostatar — serviu como o espelho onde os católicos modernos são convidados a olhar-se. Ele representa os milhares de anônimos e canonizados que regaram o solo mexicano com o seu sangue. A brutalidade do conflito deixou um saldo devastador, com estimativas que variam entre 30.000 a mais de 90.000 mortos, muitos dos quais foram executados sumariamente apenas por serem católicos praticantes ou por darem abrigo a um sacerdote. A memória destes mártires, beatificados e canonizados nas últimas décadas pela Igreja, transforma a narrativa de uma “derrota militar” em uma vitória espiritual retumbante, onde o testemunho de fé superou o medo da morte e garantiu a sobrevivência da Igreja no México para as gerações futuras.

Para dar a devida profundidade a este centenário, o congresso contou com a presença de figuras de destaque no cenário intelectual e religioso, garantindo que a memória não fosse apenas emotiva, mas fundamentada na verdade histórica rigorosa. Entre os palestrantes estava o Padre Javier Olivera Ravasi, sacerdote argentino, doutor em Filosofia e História e prolífico autor sobre o tema, cuja presença sublinhou a universalidade da causa cristera. Juntamente com ele, o Padre Juan Razo García e o ativista Uriel Esqueda trouxeram análises cruciais sobre a defesa da liberdade religiosa. Tudo isso ocorreu sob o aval e a bênção do Bispo Pedro Pablo Elizondo Cárdenas, administrador apostólico da diocese de Cancún-Chetumal. O bispo enfatizou que recordar a Cristiada não é um exercício de revanchismo ideológico, mas um ato necessário de justiça. É preciso limpar as lentes da história, muitas vezes turvadas por narrativas oficiais que tentaram apagar ou distorcer a legitimidade da defesa católica, para compreender o que realmente estava em jogo naquelas serras há cem anos.

Uma das contribuições mais relevantes deste congresso foi a capacidade de conectar o passado sangrento com os desafios contemporâneos. As palestras não se limitaram a narrar batalhas de 1926, mas utilizaram a Cristiada como base para refletir sobre o conceito de “Estado Laico” na atualidade. Foi discutido que uma laicidade autêntica e saudável não consiste na exclusão da fé do espaço público, nem na criação de um ambiente hostil aos crentes, mas sim na garantia do respeito efetivo à liberdade de consciência, religião e expressão. Os palestrantes alertaram que o espírito de perseguição pode assumir novas formas no século XXI, menos sangrentas talvez, mas igualmente restritivas, buscando silenciar a voz moral da Igreja na sociedade. Assim, o exemplo dos Cristeros surge como um farol, lembrando aos católicos de hoje que a fé não deve ser escondida nas sacristias, mas vivida plenamente em todas as esferas da vida social e política.

A complexidade da Guerra Cristera também reside no seu desfecho, um ponto abordado com honestidade durante o evento. Embora o conflito armado tenha terminado formalmente em 1929 com os chamados “Los Arreglos” — acordos mediados inclusive pela diplomacia internacional —, a história mostra que a paz prometida foi, em muitos aspectos, uma armadilha. Após a deposição das armas por parte dos fiéis, que obedeceram dolorosamente às ordens da hierarquia para cessar o fogo, o governo mexicano iniciou uma caçada implacável contra os líderes e combatentes desarmados. A perseguição não cessou instantaneamente; ela se metamorfoseou, continuando por anos e deixando um rastro de traição e morte. Recordar este aspecto amargo é fundamental para entender a resiliência do povo mexicano, que, mesmo sentindo-se muitas vezes abandonado ou traído politicamente, nunca abandonou a sua lealdade a Cristo e à sua Igreja, mantendo a fé viva nas catacumbas da sociedade até que a liberdade pudesse ser reconquistada paulatinamente.

Ao final, a cem anos do primeiro tiro disparado e da primeira oração sufocada, o congresso em Cancún deixa uma mensagem clara de esperança e vigilância. A Cristiada não é uma peça de museu; é uma lição viva de amor extremo a Deus. Ao recuperar a memória histórica e honrar os mártires, a Igreja no México e no mundo projeta o seu futuro. Este centenário serve como um convite para que a sociedade moderna redescubra o valor inegociável da liberdade religiosa e o papel insubstituível da fé na construção de uma civilização mais humana. O sangue derramado há um século não foi em vão; ele frutificou em uma fé que resiste, que celebra e que, cem anos depois, ainda tem a coragem de levantar a voz para gritar, com a mesma força dos seus antepassados e com os olhos fixos no céu: “¡Que viva a Virgem de Guadalupe! ¡Que viva Cristo Rey!”.

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Sou Fabio Russo, desenvolvedor e administrador do site Artesanato Total desde 2015. A mais de 25 anos trabalho com diversos nichos de sites na Internet, sempre presando a qualidade em todos os projetos.

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