O banquete romano onde se vomitava para comer mais. Nojento!

O banquete romano onde se vomitava para comer mais

Quando imaginamos o auge do Império Romano, é quase inevitável que nossa mente evoque imagens de banquetes suntuosos, repletos de imperadores deitados em divãs, rodeados por montanhas de uvas e cálices de vinho que nunca se esvaziam.

O banquete romano onde se vomitava para comer mais

A cultura popular, reforçada por filmes e livros ao longo dos séculos, pintou um retrato de Roma como um lugar de indulgência sem limites, onde a busca pelo prazer gastronômico superava qualquer senso de medida ou moralidade. De fato, para a elite romana, o jantar — ou a cena, como era chamado — não era apenas uma refeição; era o evento social mais importante do dia, um teatro vivo onde política, negócios e ostentação se entrelaçavam. No entanto, é fundamental olharmos para além das caricaturas e entendermos como esses eventos realmente funcionavam. A ideia de que o objetivo único era comer até explodir é uma simplificação que esconde uma realidade muito mais complexa e rica sobre a estrutura social daquela civilização.

Diferente das nossas salas de jantar modernas, com mesas altas e cadeiras rígidas, o ambiente de jantar romano, conhecido como triclinium, era projetado para o relaxamento e a conversa prolongada. O nome deriva dos três leitos (klinai) dispostos em forma de “U” ao redor de uma mesa central baixa. Esta disposição não era aleatória; ela refletia a rígida hierarquia social da época. Apenas os convidados de honra e os anfitriões desfrutavam do privilégio de comer reclinados, apoiando-se sobre o braço esquerdo enquanto usavam a mão direita para levar os alimentos à boca. Esta postura, que para nós pode parecer desconfortável, era para eles um sinal supremo de status e liberdade, distinguindo-os dos escravos que serviam em pé e das crianças que, muitas vezes, sentavam-se em bancos. O local onde cada um se recostava comunicava silenciosamente seu prestígio; o lugar de honra ficava no leito do meio, mas o anfitrião estrategicamente se posicionava para facilitar a conversa com o convidado principal, garantindo que o fluxo de influência fosse tão constante quanto o de vinho.

Talvez um dos mitos mais persistentes e “pesados” sobre os costumes romanos seja a existência do infame “vomitorium” — supostamente, uma sala dedicada exclusivamente para que os convidados pudessem purgar o estômago e voltar a comer. É imperativo corrigir essa noção histórica. Na arquitetura romana real, vomitorium era o nome dado às amplas passagens e corredores em teatros e anfiteatros, como o Coliseu, projetados para “vomitar” (no sentido de expelir rapidamente) multidões de espectadores para as ruas após um espetáculo. Não havia, nas casas romanas, um cômodo arquitetônico destinado à regurgitação. Embora a prática de induzir o vômito para aliviar a indigestão ou permitir o consumo contínuo fosse relatada por escritores antigos como Sêneca e Suetônio ao criticarem a gula de certos imperadores, isso era visto, na maioria das vezes, como um sinal de decadência moral ou uma necessidade médica extrema, e não uma etiqueta padrão ou um recurso com sala própria em todas as vilas.

Um verdadeiro banquete romano começava muito antes dos pratos principais pesados. A primeira etapa da refeição era chamada de gustatio, uma espécie de rodada de aperitivos destinada a estimular o apetite e preparar o paladar. Nesta fase, a criatividade dos cozinheiros era testada ao limite. Os pratos servidos poderiam variar desde azeitonas e vegetais temperados com vinagre até iguarias que hoje consideraríamos no mínimo excêntricas. Ovos eram extremamente comuns, muitas vezes servidos como base, mas para impressionar, um anfitrião rico poderia oferecer arganazes (um tipo de roedor) cevados com nozes e mel, ou ouriços-do-mar frescos. O contraste de sabores era a regra: o doce misturado com o salgado, o uso abundante de mel e especiarias importadas. Era uma demonstração de que o dono da casa tinha acesso a mercados distantes e podia trazer o mundo para dentro de sua sala de jantar.

Após as entradas, chegava o momento da prima mensa, o prato principal e a parte mais substancial do evento. Aqui, a carne era a protagonista, mas raramente era servida de forma simples.[2] A culinária romana adorava disfarçar os alimentos, transformando um ingrediente em algo visualmente surpreendente. Um porco assado poderia ser trazido à mesa e, ao ser cortado, liberar salsichas e aves vivas de seu interior, num espetáculo teatral. Tudo isso era generosamente regado com garum, o onipresente molho de peixe fermentado que os romanos usavam como nós usamos o sal ou o molho de soja. Embora o processo de fabricação do garum (vísceras de peixe fermentadas ao sol por meses) possa soar pouco apetitoso para a sensibilidade moderna, ele era uma iguaria caríssima e essencial, conferindo um sabor umami profundo que definia o gosto da época e mascarava o frescor duvidoso de algumas carnes em um mundo sem refrigeração.

A extensão do Império Romano não era medida apenas por mapas e fronteiras, mas também pelo que era servido à mesa. Comer animais exóticos ou ingredientes trazidos de cantos remotos do mundo era uma forma de simbolizar o domínio de Roma sobre a natureza e sobre os povos conquistados. Flamingos, pavões, línguas de rouxinol e até mesmo camelos poderiam figurar nos cardápios dos mais ricos, não necessariamente porque eram deliciosos, mas porque eram raros e difíceis de obter. Um anfitrião que servisse um peixe que só poderia ser pescado em águas específicas da Espanha ou tâmaras colhidas no Egito estava, na verdade, servindo poder. Essa ostentação gerava uma competição feroz entre a elite, onde cada banquete precisava superar o anterior em termos de raridade e extravagância, criando um ciclo de consumo que chocava os filósofos estoicos da época, que pregavam a moderação.

Nenhum banquete romano estaria completo sem o vinho, mas a forma como ele era consumido difere drasticamente dos hábitos atuais. Beber vinho puro era considerado um costume “bárbaro”, típico de povos não civilizados. Os romanos sempre diluíam seu vinho com água — morna no inverno e fria (ou até com neve trazida das montanhas) no verão. A proporção da mistura era decidida no início da festa por um “Mestre da Bebida” ou Rex Bibendi, escolhido nos dados. Ele ditava o ritmo da noite: se a festa seria séria e filosófica, com pouca bebida, ou se seria uma celebração intensa. Havia vinhos de todas as qualidades, desde o prestigiado Falerno, envelhecido por anos e reservado para os hóspedes mais ilustres, até vinhos avinagrados servidos aos convidados de menor importância ou aos parasitas sociais que frequentavam as casas em busca de comida grátis.

Engana-se quem pensa que o foco estava apenas no prato. Um banquete de longa duração, que poderia se estender desde o fim da tarde até altas horas da noite, exigia entretenimento constante para evitar o tédio. Entre os pratos, ou durante o consumo do vinho, a sala de jantar se transformava em um palco. Músicos tocando liras e flautas, poetas declamando versos épicos (ou sátiras picantes sobre os presentes), dançarinos e acrobatas eram comuns. Em festas mais decadentes ou “animadas”, poderiam haver apresentações de gladiadores amadores ou bobos da corte para divertir os convidados. O anfitrião culto tentaria guiar a conversa para temas literários ou filosóficos, mas, à medida que o vinho fluía, a atmosfera frequentemente transitava para a fofoca política, jogos de azar e discussões acaloradas, refletindo a vibrante e muitas vezes caótica vida social romana.

Os banquetes também serviam para reforçar as complexas teias de lealdade da sociedade romana, particularmente a relação entre “patrono” e “cliente”. Um homem rico e poderoso tinha a obrigação social de, ocasionalmente, convidar seus dependentes ou “clientes” para jantar. No entanto, a igualdade parava na porta de entrada. Relatos históricos, como os do poeta Marcial, descrevem com amargura como os anfitriões serviam comida e vinho de qualidade superior para si mesmos e para seus amigos próximos, enquanto ofereciam pão duro, vinho barato e restos para os convidados de classe inferior que estavam na mesma sala. Essa humilhação pública era parte do jogo de poder; estar no banquete era um privilégio, mas a qualidade do que você comia deixava claro exatamente onde você estava na escada social. A comida funcionava, portanto, como uma ferramenta de segregação e afirmação de status, mesmo num momento de aparente comunhão.

Retornando à questão dos excessos físicos, é importante notar que a sociedade romana não era unânime na aprovação da gula desenfreada. Embora o mito da sala de vômito seja falso, a prática de comer até passar mal existia e era duramente criticada pelos intelectuais da época. Filósofos como Sêneca viam esses banquetes intermináveis como a prova da decadência espiritual de Roma. Ele escrevia sobre homens que “não comiam para viver, mas viviam para comer”, criticando aqueles que gastavam fortunas em cogumelos exóticos ou ostras apenas para expeli-los depois. Esses relatos, que chegaram até nós, foram muitas vezes escritos com o intuito de chocar os leitores contemporâneos e servir de alerta moral. Portanto, quando lemos sobre banquetes onde as pessoas comiam até a exaustão, estamos muitas vezes lendo a crítica social de um romano conservador observando com horror os novos ricos de sua era.

Para encerrar a maratona gastronômica, servia-se a secunda mensa, ou a sobremesa. Neste momento, os sabores salgados e picantes davam lugar ao doce. Frutas frescas ou secas, como figos, tâmaras, maçãs e uvas, eram a base, mas a doçaria romana também incluía bolos feitos com trigo e encharcados em mel (já que o açúcar de cana era desconhecido ou extremamente raro), além de nozes e amêndoas torradas. Era também nesta fase que rituais religiosos podiam ocorrer, como uma pequena oferta aos Lares (os deuses do lar), lembrando que, para o romano antigo, a vida cotidiana e a religião estavam sempre interligadas. O final do banquete não era apenas o fim da comida, mas o momento de consolidar as alianças feitas, levar para casa as lembranças da noite (chamadas de apophoreta, presentes dados pelo anfitrião) e, claro, tentar caminhar de volta para casa pelas ruas escuras de Roma.

Ao analisarmos os banquetes romanos hoje, é fácil focar apenas nos aspectos bizarros ou “nojentos” para a nossa sensibilidade, como o uso excessivo de vísceras ou a suposta gluttony desenfreada. No entanto, esses eventos deixaram um legado duradouro na forma como enxergamos a celebração à mesa. A estrutura de pratos sequenciais (entrada, prato principal, sobremesa), a ideia de harmonizar comida com bebida e a utilização do jantar como uma ferramenta primordial de networking e política são heranças diretas dessa cultura. Os romanos elevaram a alimentação de uma necessidade biológica para uma forma de arte e de expressão política. Seus banquetes, com toda a sua glória, excesso e contradições, continuam a nos fascinar porque refletem, em última análise, a própria natureza humana em sua busca incessante por prazer, poder e conexão social, ampliadas pela lente grandiosa da Roma Antiga.

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Sou Fabio Russo, desenvolvedor e administrador do site Artesanato Total desde 2015. A mais de 25 anos trabalho com diversos nichos de sites na Internet, sempre presando a qualidade em todos os projetos.

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