A história do grande Império Persa é frequentemente lembrada por suas batalhas colossais, exércitos imortais e a figura imponente de seus governantes, com destaque absoluto para o Rei Xerxes I.
No entanto, por trás da fachada de divindade e do poder absoluto que ele exercia sobre vastos territórios, existia uma realidade doméstica sombria, marcada por intrigas que fariam qualquer campo de batalha parecer menos cruel. O relato que sobreviveu ao tempo, trazido até nós pelo historiador grego Heródoto, não fala de conquistas territoriais, mas de uma derrota moral devastadora. Trata-se de um episódio que revela como o desejo desenfreado e o ciúme corrosivo dentro da corte real resultaram em um destino para sua própria família que muitos considerariam, sem dúvida, pior do que o fim da própria vida. A narrativa nos convida a olhar para além da coroa e testemunhar a desintegração humana de um dos homens mais poderosos da Antiguidade.
Para compreender a gravidade dos eventos que se desenrolaram, é necessário primeiro entender o ambiente da corte Aquemênida. O poder de Xerxes era absoluto, e suas decisões não podiam ser questionadas por mortais comuns. Contudo, dentro do harém e dos círculos íntimos da família real, o poder não era apenas político; era pessoal e emocional. As alianças eram frágeis e a lealdade podia ser quebrada por sentimentos humanos básicos, como a paixão e a inveja. Foi nesse cenário de opulência e tensão silenciosa que Xerxes, após retornar de suas campanhas na Grécia, viu-se envolvido em uma trama que não foi tecida por inimigos externos, mas pelos seus próprios impulsos. A história começa não com ódio, mas com uma afeição mal direcionada que logo se transformaria em uma catástrofe familiar de proporções épicas, envolvendo seu irmão, Masistes, e as mulheres que cercavam ambos os homens.
O estopim para a tragédia foi uma paixão proibida e complexa. Relatos históricos indicam que Xerxes, inicialmente, voltou seus olhos para a esposa de seu irmão Masistes. No entanto, diante da recusa e da impossibilidade de concretizar tal desejo sem causar um escândalo imediato, o foco de sua atenção mudou-se perigosamente para a geração seguinte: Artaynte, a filha de Masistes e, portanto, sobrinha do próprio rei. Esse envolvimento não era apenas uma questão de infidelidade conjugal; era uma violação das normas familiares que sustentavam a harmonia da dinastia. Xerxes, cego pelo momento e pela sensação de impunidade que seu cargo lhe conferia, iniciou um relacionamento com Artaynte, sem prever que esse ato de indiscrição acenderia o pavio de uma bomba que destruiria a paz de sua casa. O segredo, como costuma acontecer em cortes repletas de servos e observadores, não permaneceria oculto por muito tempo.
A trama se aprofunda com um detalhe que ilustra a vaidade e a imprudência. Améstris, a esposa oficial de Xerxes e rainha do império, era uma mulher conhecida por sua inteligência afiada e, segundo os historiadores, por um temperamento implacável quando contrariada. A descoberta da traição não ocorreu por flagrante direto, mas através de um objeto simbólico: um manto real, magnificamente tecido pela própria Améstris, que Xerxes, em um momento de deslumbre, presenteou a Artaynte. Quando a rainha viu a jovem sobrinha ostentando aquela peça única, a verdade se revelou de forma cristalina. Contudo, a reação de Améstris não foi uma explosão imediata de raiva contra o marido ou mesmo contra a sobrinha. Sua mente, treinada nas maquinações da corte, arquitetou um plano de vingança muito mais doloroso e indireto, mirando o que ela acreditava ser a raiz daquela afronta.
O aspecto mais perturbador da psicologia de Améstris neste episódio foi o alvo escolhido para sua ira. Em vez de punir Xerxes, o autor da traição, ou Artaynte, a participante do caso, a rainha convenceu-se de que a culpa residia na mãe da jovem, a esposa de Masistes. Na lógica distorcida do ciúme e do poder, Améstris acreditava que a mãe era conivente ou responsável pelo comportamento da filha. Assim, ela guardou seu ódio silenciosamente, aguardando o momento oportuno para agir. Ela não desejava uma punição simples; ela desejava enviar uma mensagem que ecoasse através dos corredores do palácio, uma demonstração de poder que deixasse claro o custo de desafiar a dignidade da rainha. A paciência de Améstris tornou a vingança ainda mais terrível quando finalmente foi executada.
A oportunidade surgiu durante uma celebração anual de grande importância, o banquete de aniversário do rei, uma ocasião em que a tradição persa ditava que o monarca deveria conceder um pedido a quem ele desejasse honrar. Améstris, conhecedora profunda dos costumes e das obrigações de seu marido, aproveitou esse momento de vulnerabilidade cerimonial. Diante de toda a corte, ela não pediu joias ou terras; ela pediu a vida e o destino da esposa de Masistes. Xerxes, percebendo tardiamente a armadilha em que havia caído e preso pelas leis imutáveis de sua própria palavra e tradição, tentou recusar, sabendo da inocência de sua cunhada. No entanto, a pressão social e a rigidez dos costumes reais o forçaram a ceder, entregando a esposa de seu irmão às mãos de Améstris. Foi o momento em que a autoridade do rei se curvou diante da astúcia vingativa da rainha.
O que se seguiu foi um dos atos mais brutais registrados nas crônicas da família real persa. As diretrizes modernas nos impedem de descrever graficamente os detalhes anatômicos narrados por Heródoto, mas é suficiente dizer que a “punição” infligida por Améstris à esposa de Masistes foi desenhada para desumanizar completamente a vítima. Não se tratou de uma execução rápida, mas de uma desfiguração calculada e humilhante. A intenção era destruir não apenas a beleza física, mas a identidade da mulher, deixando-a viva como um monumento grotesco à fúria da rainha. Ela foi submetida a tormentos físicos severos e abandonada em um estado que chocaria qualquer testemunha, transformada em um exemplo vivo do que acontecia a quem cruzasse o caminho de Améstris. A crueldade do ato superava a morte, pois condenava a vítima a uma existência de sofrimento contínuo e vergonha pública.
Quando Masistes encontrou sua esposa após o ato de vingança, o cenário que presenciou foi devastador. A mulher que ele amava havia sido transformada em algo irreconhecível, vítima de uma violência sem sentido provocada por intrigas das quais ela era inocente. O impacto psicológico sobre Masistes foi imediato e profundo. Ele compreendeu que não havia mais segurança para ele ou sua família na capital do império. A lealdade ao rei, seu próprio irmão, foi instantaneamente substituída por um instinto de sobrevivência e um desejo ardente de justiça ou revolta. A quebra da confiança fraternal foi total; Xerxes havia permitido, por omissão e fraqueza, que a barbárie entrasse em sua própria casa, destruindo a vida de seu irmão mais leal.
Sem ver outra alternativa além da morte iminente se permanecesse em Susa, Masistes reuniu seus filhos e seguidores leais e iniciou uma fuga desesperada em direção à Báctria. Como sátrapa (governador) daquela região, ele gozava de grande respeito e popularidade entre as tribos locais e o exército estacionado lá. O plano de Masistes era claro: levantar uma revolta contra Xerxes. Ele não estava mais fugindo apenas para salvar a vida, mas para organizar uma resposta militar à tirania doméstica que havia destruído sua família. A Báctria, com seus recursos e guerreiros, poderia ter sido a base de uma guerra civil capaz de abalar as estruturas do Império Persa, motivada não por política, mas por uma vingança pessoal justificada pela brutalidade sofrida.
Xerxes, ciente das implicações políticas e militares da fuga de seu irmão, agiu com a frieza de um governante que prioriza o trono acima do sangue. Ele sabia que, se Masistes chegasse à Báctria, a guerra seria inevitável e seu reinado estaria em risco. Portanto, o rei enviou suas tropas de elite para interceptar o grupo fugitivo antes que alcançassem a segurança de seu destino. A ordem não era de captura, mas de aniquilação. Na estrada para a Báctria, longe dos olhos do público, as forças de Xerxes alcançaram Masistes. O que ocorreu foi um massacre completo. Masistes, seus filhos e todos os que o acompanhavam foram executados sem piedade. Xerxes não apenas matou seu irmão; ele erradicou toda aquela ramificação de sua própria linhagem para silenciar a vergonha de seus atos e garantir sua segurança política.
A erradicação da família de Masistes pode ter resolvido o problema imediato de uma revolta, mas lançou uma sombra permanente sobre o reinado de Xerxes. A violência gera violência, e o ambiente de conspiração que permitiu tais atrocidades acabou se voltando contra o próprio rei anos mais tarde. Em 465 a.C., Xerxes não encontrou um fim glorioso em batalha, mas foi assassinado em seus próprios aposentos, vítima de uma conspiração liderada por seu vizir Artabano e um eunuco da corte. O ciclo de sangue continuou com a morte de seu herdeiro, Dario, até que outro filho, Artaxerxes, conseguisse retomar o controle, matando os usurpadores. A corte persa havia se tornado um ninho de víboras, onde a confiança era impossível e a traição era a moeda corrente, um legado direto das decisões morais falhas do passado.
Ao analisarmos este capítulo sombrio da história antiga, a afirmação de que o destino da família de Masistes foi “pior que a morte” ganha um peso terrível e real. A morte física, no final, foi apenas o desfecho de uma série de violações emocionais e físicas excruciantes. A esposa inocente sofreu a destruição de sua humanidade em vida; Masistes viu seu mundo ruir pela traição do irmão antes de ser caçado como um animal. O relato de Heródoto serve como um lembrete atemporal de que, mesmo nos píncaros do poder humano, as paixões básicas e a falta de bússola moral podem levar à ruína total. Xerxes, o rei dos reis, pode ter comandado milhões, mas foi incapaz de governar os impulsos de sua própria casa, resultando em uma tragédia que manchou sua memória para sempre com o sangue de seus parentes.