O QUE VEM DE 2026 EM DIANTE EXIGE MENTE E CORAÇÃO FORTES

A existência humana pode ser comparada, com grande propriedade, a um bloco de argila crua entregue às nossas mãos no alvorecer da consciência. Ao longo de uma vida, moldamos essa matéria plástica através de nossas escolhas: esculpimos a qualidade de nossos relacionamentos afetivos, damos forma à nossa relação com a prosperidade material e texturizamos o cuidado — ou o descaso — com o nosso próprio corpo físico.

Quando o jogo da vida material cessa, não ocorre o fim do ser, mas apenas uma pausa na manipulação da matéria. Nesse momento, somos confrontados com a escultura que deixamos: uma obra que reflete fielmente quem fomos. Muitas vezes, ao observar a argila estática, percebemos as deformidades, as arestas mal acabadas e as estruturas colapsadas por nossa imprudência emocional ou ética. A consciência desperta então o desejo de correção, não por imposição externa, mas pela constatação íntima de que a obra está imperfeita e precisa ser refeita.
Ao recebermos a oportunidade de retornar a este plano para continuar o trabalho, a Lei Divina, em sua infinita sabedoria, não nos entrega uma argila nova e imaculada, mas sim a mesma massa que moldamos anteriormente. É a continuidade da obra. No entanto, a misericórdia do universo nos cerca de ferramentas auxiliares precisas para essa reconstrução. Somos inseridos em famílias específicas, cercados por amigos e circunstâncias que, embora pareçam aleatórias, são meticulosamente desenhadas para nos oferecer o suporte necessário. Recebemos pais, mentores e desafetos que atuarão como instrumentos de lapidação. A divindade não cobra uma dívida impagável, pois os dons da vida são infinitos e nenhuma moeda humana poderia saldá-los; o que existe é uma pedagogia do amor que nos oferece os meios de reparar a nós mesmos.
A compreensão da justiça divina afasta-se da ideia infantil de um Deus punitivo e aproxima-se da lógica inabalável de causa e efeito, que educa pela consequência e não pelo castigo. Tal como um animal que aprende pela repetição da experiência — buscando a fonte onde há água e evitando a fonte que secou —, o espírito humano é educado pelos resultados de suas próprias ações. A consequência é a grande mestra. Se a argila está deformada, o trabalho para consertá-la será árduo, exigindo suor e lágrimas, mas esse esforço não é uma penalidade vingativa; é o processo mecânico e moral de reajuste. A dor, muitas vezes, é apenas o sinal de que estamos forçando a argila de volta à sua forma ideal, corrigindo distorções seculares que nós mesmos criamos.
Nesse contexto, situações que aos olhos humanos parecem tragédias, como limitações físicas severas ou nascimentos em condições de extrema vulnerabilidade, revelam-se, sob a ótica espiritual, como missões de alta complexidade e profundo aprendizado. Aquele que chega com a “argila” marcada por paralisias ou restrições não está pagando um preço a um credor furioso, mas está imerso em um processo intensivo de reconstrução interior, muitas vezes cercado por almas afins que, por amor, aceitam ser os cuidadores e suportes dessa jornada. É uma operação conjunta onde quem cuida e quem é cuidado desenvolvem virtudes sublimes como a paciência, a resiliência e o amor incondicional, transformando o aparente sofrimento em uma alavanca poderosa para a sabedoria.
A evolução é, portanto, uma fatalidade da qual nenhum ser pode escapar; é a única opção não opcional no universo. Mesmo as consciências mais endurecidas, os tiranos históricos e as figuras que personificaram o mal, não estão condenados à perdição eterna, pois nenhuma “ovelha” pode se perder definitivamente do rebanho universal. O livre-arbítrio permite que o indivíduo escolha a estagnação ou o caminho do erro por um tempo, mas não para sempre. Existe um mecanismo psicológico e espiritual fascinante chamado exaustão do mal. A insistência no erro, com o tempo, gera tédio, saturação e um vazio existencial tão profundo que a própria alma, cansada de sofrer as consequências de sua rebeldia, decide mudar a rota.
Essa mudança de rota é o que, em diversas tradições, chama-se de conversão ou metanoia, mas que vai muito além de uma simples adesão religiosa verbal. Trata-se do “clique” de consciência, o ponto de virada onde o indivíduo reconhece a necessidade de abandonar o “velho eu” narcisista e abraçar uma nova forma de ser. Contudo, o arrependimento, por si só, não basta; ele é apenas o início. A lei do universo exige reparação. Não se trata de culpa — um sentimento paralisante e inútil —, mas de responsabilidade. Quem desorganizou o cenário é o único responsável por reorganizá-lo. Se em existências passadas alguém destruiu a confiança ou a vida de outrem, precisará, inevitavelmente, reencontrar essas mesmas consciências para, através do amor e do serviço, reconstruir o que foi quebrado.
Essa reparação pode ser uma tarefa de longo prazo, estendendo-se por séculos ou milênios. O tempo, na contabilidade divina, é irrelevante diante da importância do aprendizado. Um erro grave cometido contra um irmão pode exigir centenas de anos para que o perdão seja genuinamente conquistado e a harmonia restabelecida. Por isso, a ilusão de que podemos adiar nossa reforma íntima para uma “próxima vida” é perigosa; estamos apenas acumulando juros morais e complexidade para o nosso futuro. O universo é simples e direto: você é o responsável pela sua bagunça. Não virá ninguém limpar a sujeira que você fez; virão ajudantes para lhe ensinar a limpar, mas a vassoura estará em suas mãos.
Entretanto, há um acelerador poderoso nesse processo: o amor e a disposição ativa para o bem. Como ensinam as antigas escrituras, “o amor cobre uma multidão de pecados”. Quando o indivíduo, cansado de errar, decide verdadeiramente devotar-se ao bem, à caridade e à retidão, ele aciona uma lei superior de misericórdia. O universo “monitora” as intenções e, ao perceber o esforço sincero de melhoria, começa a facilitar o caminho. Surgem o que chamamos de milagres: encontros “acaso”, oportunidades inesperadas e soluções para problemas antigos. É a resposta da vida à mudança de frequência vibratória do indivíduo, provando que não estamos sós e que todo esforço nobre é amparado por forças invisíveis.
Finalmente, compreende-se a máxima de “negar a si mesmo e tomar a sua cruz”. Longe de ser um convite ao masoquismo, é um chamado à maturidade espiritual absoluta. Negar a si mesmo é abandonar o egoísmo infantil que coloca o “eu” no centro do mundo. Tomar a cruz não é carregar um instrumento de tortura, mas sim abraçar a sua própria “argila” — com todos os defeitos, desafios e responsabilidades que ela contém. É aceitar a própria vida como ela é, sem vitimismo, e entender que os desafios atuais são exatamente o material de trabalho necessário para a nossa evolução. O futuro exige mentes e corações fortes porque somente aqueles que assumem a autoria de seu destino e a responsabilidade de suas obras estarão aptos a transformar a si mesmos e, consequentemente, o mundo ao seu redor.
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